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Das filas e carteiradas 25/07/06

Posted by Calsavara in Comportamento, Cotidiano, Crônicas.
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Hoje eu estava seguindo um dos meus rituais diários. Todos os dias, por volta das 11h30 vou até o Viscardi da Quintino pra comprar um marmitex básico. Dependendo do horário que se chega, há um certo número de pessoas, o que acaba gerando uma pequena fila. Nada de mais, mas é uma fila.

Logo atrás de mim, uma senhôra que aparentava ser muito importante, dado o jeito empertigado com que conversava ao celular. À sua interlocutora, aparentemente tão importante quanto, dizia: “não, honey. Eu estou aqui no supermarket. Isso, estou na fila da marmita, ai que horror… Hahaha, isso… Marmita, honey, acredita nisso? Pois é… E pra variar, tem uma fila aqui… Lógico que é coisa de brasileiro. Nunca vi um povo pra gostar tanto de fila igual brasileiro, que horror!”. E o diálogo prosseguia, versavam sobre as mais diversas áreas e setores da cognoscibilidade.

Fiquei imaginando como seria a distribuição das referidas marmitas, tão execradas pela nobre senhôra, se não houvesse o advento da fila. E não só ali, mas em qualquer outro lugar onde as tais filas são execradas, como agências bancárias, casas lotéricas, cinemas, motéis em dia dos namorados (e no dia da secretária)… Seria o verdadeiro reino do caos.

Não sei porque tantas pessoas detestam as filas. É, talvez, uma das formas mais ordeiras e ordenadas de se estabelecer uma ordem de atendimento. Pense em você tentando sacar um dinheiro no caixa eletrônico do seu banco e aquela turba ao redor das máquinas, todos brigando por sua vez. Seria isso a solução? Sim, nós brasileiros temos uma ligeira quedinha por filas sim. Algumas vezes, plenamente desnecessárias, como as filas de aposentados para receberem o pagamento. Mas aí já outra coisa, já envolve a impaciência dos idosos e outras cositas más

.oO0Oo.

Chegando em casa, fui dar uma conferida no JL de hoje. Na seção de cartas, uma resposta acalorada do Sr. Gerson da Silva, coordenador do Procon de Londrina, ao escritor Domingos Pellegrini. A missiva original, enviada pelo nobre letrado, fora publicada na edição de domingo. Nela, Pellegrini reclamava do atendimento “indigno” recebido por ele numa agência bancária no centro da cidade. Não estou bem certo, mas creio que se refere ao fato de ele ter ficado na espera por mais de 30 minutos pelo atendimento. Ao chegar sua vez na boca do caixa, ele teria solicitado a presença do gerente da agência. Quando o superior se apresentou, Pellegrini teria lhe dado voz de prisão por descumprimento de uma lei que reconhece o tempo máximo de espera em locais de atendimento público. Não sei se é o mesmo caso, mas aparentemente o escritor também reclamou da falta de cadeiras estofadas e de banheiros para os clientes.

O caso repercutiu, o banco foi acionado no Procon e o Procon foi acionado na Promotoria do Consumidor. Agora, três meses depois, o escritor foi convocado pelo órgão para apresentar as “informações prestadas” pela agência bancária. Segundo Pellegrini, ele esperou “40 minutos no Procon apenas para sofrer tentativa de desqualificação, com pessoal me tratando por Você em vez de Senhor, como manda a norma corriqueira em instituições de respeito“. Segundo ele, o Procon “apenas colheu cínicas explicações do banco“, e por isso o literato está “solicitandoà Promotoria que exija do Procon aplicação de multa como manda a lei, com cópia para o prefeito saber que a prefeitura mantém um Procon que declaradamente e operacionalmente defende os bancos e não os consumidores“.

A resposta, citada dois parágrafos acima, dava conta de que o nobre escritor teria sido atendido no último dia 20, e segundo as palavras do coordenador do Procon, Pellegrini “para surpresa e espanto dos consumidores e servidores, protagonizou (um) espetáculo lamentável. O escritor não se conformando em ser atendido de acordo com a ordem de chegada ao órgão, exigiu tratamento privilegiado, em altos brados, querendo ser atendido de imediato, passando a agredir verbalmente o órgão, seus servidores e seu coordenador“. Gerson ainda afirma que “o Procon de Londrina, em respeito aos consumidores presentes, não alterou sua forma de atendimento, tendo o escritor sido atendido como qualquer cidadão que procura o órgão para orientação e defesa dos seus direitos“. O coordenador finaliza a resposta afirmando sua posição, afirmando que o Procon continuará a “atender a todos os consumidores com respeito, igualdade e dedicação, e não nos curvaremos ante aqueles que, a despeito de exercer sua cidadania, protagonizam cenas de prepotência e arrogância“.

Não conheço Domingos Pellegrini pessoalmente. Apenas li um de seus livros, “Terra Vermelha“. Devo dizer que admirava o escritor, pela sua obra. Mas agora me vem à mente uma imagem de um Pellegrini ranzinza, rabugento e arrogante. Daqueles velhos impacientes que acordam às 5 da manhã para receber a aposentadoria numa agência bancária que só abrirá às 9. Impaciente e prepotente.

De todas as instituições que temos, duas delas ainda atraem minha confiança. Uma delas é a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. A outra é o Procon. Das poucas vezes que precisei da segunda, fui prontamente atendido. Não acredito num órgão de atendimento ao consumidor que destratasse um atendido.

Rapidamente, que o post já está demasiadamente longo: quando fui pedir uma segunda via do meu cartão no banco, havia um senhor à minha frente. Notoriamente afrodescendente, o homem se mostrava impaciente, à procura de alguém para conversar. Não sou dado a conversar com estranhos, mas foi inevitável. Resumidamente, o senhor estava querendo que o banco lhe desse um adiantamento de sua aposentadoria. É um procedimento que nenhum banco faz, para ninguém. Mas ele jura que foi pedir ao gerente e este havia lhe destratado, inclusive chamando-o de “preto safado, negro sem vergonha”. Agora, pense comigo: qual a probabilidade de isso ter ocorrido? Ele ligou ao Procon e explicou ao atendente a mesma história que me contou. No meio da chamada, ele brigou com o atendente, dizendo que ele também o estava chamando de “preto safado”. Desligou o telefone e foi embora. O gerente que me atendeu disse que ele vai lá todos os dias, e sempre está arrumando briga com alguém.

Pronto! Ele é o meu Pellegrini. Que briga com tudo e com todos. Ir ao Procon “para sofrer tentativa de desqualificação, com pessoal (…) tratando (o escritor) por Você em vez de Senhor, como manda a norma corriqueira em instituições de respeito” é típico dessas pessoas. Respeito, senhor Pellegrini, se conquista, não se impõe. Se há uma fila a ser respeitada, não é com a carteirada de escritor que se resolvem as coisas. Até porque, se houvesse Procon contra gente arrogante como você e a nobre senhôra da fila da marmita do Viscardi, com certeza não haveria carteirada suficiente para acabar com a fila de atendimento…

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Comentários»

1. André Simões - 25/07/06

Sei que não é conveniente perguntar isto, mas fiquei curioso: o diálogo ouvido na fila do “supermarket” é real?

2. Domingos Pellegrini - 4/08/06

Oi, sou Domingos Pellegrini. Não dei carteirada alguma no Procon, esperei 40 minutos, sentindo o clima de que tinha chegado quem ousara dizer que o Procon é Proban (com razão, explico em seguida). Enfim, um atendente praticamente me jogou no colo as explicações do banco, que já tinham sido enviadas para mim em casa, junto com a notificação para eu comparecer ao Procon (que só se dignou a atender minha reclamação contra o Banco depois que, cansado de esperar dois meses, acionei a Promotoria). O atendente me falou:
– É pra você ler isso antes de ser atendido.
Achei o tratamento indigno. Me pareceu provocação. Exigi respeito. Continuaram me tratando de você, então passei a exigir respeito em voz alta. Acha que eu deveria aceitar?
Daí o Sr. Gerson veio lá de dentro para me dizer energicamente que eu devia esperar atendimento como todo mundo, mas eu estava esperando! Disse a ele que devia unir energia contra os bancos, pois só os protege, omisso total quanto à falta de cadeiras, evidente em quase todos, embora a lei “exija”, e com filas imesas, máquinas de senha que dão horário atrasado cinco minutos ou mais em relação à autenticação mecânica dos caixas… Sem falar que o Procon de Londrina, até eu acionar a Promotoria, insistia em considerar segunda-feira dia de pico, “interpretando” a lei como disse o coordenador em visita que lhe fiz após o primeiro incidente na agência em abril. Um descarado favorecimento aos bancos, por parte de quem devia defender os cidadãos!
As explicações que o banco deu, porque a promotoria fez o Procon exigir isso do banco, em nada o justifica, apenas o banco diz que tem um método próprio de emitir senhas etc, ou seja, outra “interp~retação” da lei. Nada mais espero do Procon, só da Promotoria. O Procon tem rabo preso, provavelmente porque os bancos são os maiores financiadores das campanhas eleitorais.

Espero que agora tenha entendido minhas ações, você que diz ser eu um velho ranzinza e reclamão. Não. Apenas não sou alienado, nem covarde como quase todo o povo brasileiro. Se tenho um direito, exijo. As leis não pegam no Brasil porque o povo é covarde.

3. cenarock - 4/08/06

Eu fiquei sabendo duma história em que o Sr. Domingos Pellegrini jogou uma lixeira na cabeça de uma criança na AABB.

Também sou grande admirador da literatura do Sr. Dinho, mas ele não se dignou, ou dignou-se com extrema má vontade a um pedido de autógrafo em seu excelente “Os Meninos Crescem”.


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