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Fragmentos de uma terça-feira… 18/07/06

Posted by Calsavara in Comportamento, Cotidiano, Crônicas, Família.
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Leão
Não é o momento para lidar com dificuldades ou doenças. Pode não estar percebendo o conjunto da situação. Um dia que deveria ser dedicado mais a refazer suas forças.

Mas eu não te ouvi, ó horóscopo. Não me dediquei a refazer minhas forças. Mesmo debilitado por um violento resfriado, que me fez ficar em claro por toda a noite de hoje, estou aqui, firme e forte (nem tão firme, nem tão forte) defendendo meu posto.

Não me lembro bem como cheguei em casa ontem. Tenho a impressão de que o Gonzo falou algo comigo, mas eu não estava em condições de compreender, nem mesmo de argumentar. Caí na cama e desmaiei. Só lembro que passava das 2 e pouco da manhã e a fronha do meu travesseiro poderia ser torcida de tanto suor.

Diclofenacos, paracetamóis, dipironas, cafeínas e tudo o mais. Só assim para tentar ajudar o corpo. Mais de 15 horas depois, o quadro parecia controlado.

Durante todo o tempo insone, não sei se alterado pela febre ou pela crueza da visão, fiquei refletindo sobre a cena que vi no final de semana, lá em Maringá. Meu tio-avô, Claudino Calsavara, estava internado. Um misto de depressão com problemas cardio-respiratórios fez com que ele, do alto dos seus 75 anos estivesse lá, com um respirador, num leito de hospital.

O Tio Dino, como meu pai o chamava, não era muito do meu convívio. Pelo que me recordo, antes deste sábado tinha visto o homem umas 2 ou três vezes. Pouco, pela importância que ele teve para meu pai. Enfim, ele estava lá, ralos cabelos brancos, aquela incômoda mangueira de oxigênio no nariz, amparado pela Tia Geni (sua fiel companheira).

Meu pai me conta que, há alguns anos, ele era um senhor sanfoneiro. Tem, inclusive, uma gaita guardada em sua casa. Mas a força (ou a falta dela) no seu aperto de mão nem um pouco me inspiraram a criar uma imagem do Tio Dino sanfoneiro. Conversamos amenidades enquanto eu fixava o olhar naquele senhor, tão frágil e dependente de cuidados.

Quando alguém morre jovem, sempre há os que dizem “Coitado, morreu tão cedo”. Mas conforme o tempo passa, percebe-se como é triste envelhecer, e que a morte não passa de uma conseqüência de se estar vivo. E eu via nos olhos do Tio Dino um misto de serenidade e pavor, alternando-se a cada buscada de ar que dava com seus já frágeis pulmões. A serenidade de quem percebe que boa parte de sua jornada na terra já foi cumprida. Mas, ao mesmo, tempo, o pavor de ver a vida se esvaindo pelas mãos. Logo ele, que segundo o meu pai, tinha medo de morrer.

Fui embora levando comigo um fraco aperto de mão dele, antes homem forte, agora debilitado. Meu pai ainda voltaria lá no domingo. Eu não quis descer do carro, talvez por não saber lidar com essas situações. Meu pai disse que estavam lá ele, Tio Dino e Tia Geni. Numa tentativa de motivar o velho a continuar lutando pela sua vida, meu pai disse a ele “Ê, Tio Dino, vamos pescar muito peixe ainda com o Tio Orides, hein? E tocar muita sanfona! Quero ver o senhor rasgando o fole daquela sanfona de tanto tocar“. Uma lágrima desceu pelo rosto do pobre Tio Dino, mas chorar não conseguia, porque não tinha fôlego. Ele juntou suas forças, pegou a mão do meu pai e disse, quase num sussuro: “Eu vou morrer, Zé”.

Terminado o tempo da visita, meu pai foi até a porta. Despediu-se da Tia Geni e do Tio Dino. Ao sair do quarto, Tio Dino ainda tentou pôr-se de pé para acenar para meu pai, mas tudo o que pôde fazer foi ficar sentado e dar-lhe com a mão. Era isso por volta das 16h do domingo.

Hoje liguei para Ivaiporã, e meu pai disse que o Tio Dino tinha descansado. Pelo que as sobrinhas lhe contaram, também por telefone, ele foi embora por volta das 16h30 daquele mesmo dia. “A gente não acredita nessas coisas, mas dá a impressão de que ele me esperou para ir embora”, disse meu pai, abatido. E eu fui obrigado a concordar com ele.

Quantas coisas são guardadas para serem ditas depois e o depois não há? Quantas oportunidades são perdidas porque se acredita que haverá outras? Quantas chances são desperdiçadas por essa falsa noção de que teremos todo o tempo do mundo?

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Comentários»

1. cenarock - 19/07/06

Belo post, Calsão

2. cenarock - 19/07/06

O estatuto da Academia Brasileira de Letras estabelece que para alguém candidatar- se é preciso ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário.

3. cenarock - 19/07/06

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