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Flores, sangue e Caetano Veloso 1/07/06

Posted by Calsavara in Comportamento, Crônicas, Mulheres.
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— Nossa, Beto, você é mesmo um amigão!

Sem saber, Cláudia cravava-lhe no peito uma estaca, daquelas com pontas, ganchos, fisgas e tudo o mais que possa machucar.

“Amigão?”, ele pensou… “Amigão? Amigo até que poderia ser. É aquele que, num momento mais colorido da amizade pode subir mais um degrau na escala evolutiva do flerte. Mas amigão? Amigão é aquele que empresta CD’s que nunca serão devolvidos, é quem empurra o carro alheio sem gasolina em pleno reveillon, é quem fica de ‘estepe’ pra menina na balada, só pra ela despistar aquele mala que está a fim dela. Eu posso até ser seu amigo, mas não quero ser seu ‘Amigão'”, esbravejava mentalmente.

Enquanto ele a continha, num terno abraço, pensava em quanto tempo havia perdido criando cenas fantasiosas, decupando sonhos mirabolantes em que ambos compartilhavam a mesma vida, ao mesmo tempo, no mesmo espaço.

“Não é culpa minha”, Beto praticava uma espécie de auto-indulgência. “Eu só segui os sinais que ela me deixou. Há alguns dias ela praticamente implorou por mim, e agora eu sou seu ‘amigão’?”, dizia, enquanto tentava parar de tremer, nervoso qual um adolescente.

— Que flores lindas! Eu adoro lizianthus azuis! Como você sabia, Beto?

Ele sabia. Não só as flores que ela mais gostava, mas também suas preferências musicais, a bebida favorita, as marcas de roupas de sua estima, o número que Cláudia calçava. Beto sabia até mesmo se ela comia do ovo primeiro a clara ou a gema. A gema, surpreendentemente.

— Mas por que eu estou ganhando flores, Beto?

Seu olhar misturava espanto e dúvida. Enquanto a fitava, tentando decifrar aquele brilho que ela apresentava no olhar, Beto tentou lembrar do discurso decorado na noite anterior.

“Na verdade esses lizianthus são apenas uma pequena mostra de meu sentimento por você. Sabe Cláudia, um homem não nasceu pra ser sozinho. E eu já fiquei sozinho tempo demais. Você é uma luz no meu caminho, é a minha estrela-guia, é meu porto seguro, minha referência. Meu norte, meu farol na tempestade. É por você que levanto todos os dias. É por te querer que eu vivo.” Resolveu diminuir um pouco a intensidade, afinal de contas poderia assustá-la. “Como poderei dizer todas estas coisas, se nem ao menos beijei-a?”, e fo idireto ao assunto. “Eu vim aqui para te fazer uma proposta. Cláudia, você quer casar comigo?” Pensava e sorria, lembrando do dia em que, segurando sua mão, Cláudia lhe disse que era “um homem para casar”. “Nunca ninguém me disse isso antes, que bom que você percebeu isso”, eufórico, respondeu. “Sim, sim. pena que eu já achei o meu homem”, devolveu-lhe Cláudia. Após dizer isso, ela olhou bem nos olhos de Beto e fez uma cara de complacência, talvez por ter ouvido o coração do rapaz se estilhaçar em pedaços.

— Porque eu me preocupo com você, Cláudia.

“Não, não!!! Não era nada disso, sua besta. E todo aquele discurso romântico? E toda aquela conversa bonita? ‘Porque eu me preocupo com você’, idiota”. Poderia até ter dito “flores para uma flor”, deixando furiosas todas as mais ávidas leitoras de Bianca, Sabrina e coisas do gênero. Ela já estava em seus braços, era só falar a palavra certa. Mas ele não a encontrou. Tivesse feito o discurso planejado, e provavelmente o carteiro que passava ao lado sacaria de sua bolsa azul um violino e começaria a tocar alguma peça de Haydn, Bizet ou mesmo Puccini. Os pássaros, como num desenho animado, se alinhariam todos e cantariam, num côro quase celestial, as maravilhas do amor. O céu se coloriria de impressionismo, e o amor de ambos transbordaria em ondas.

— Ai, Beto, que lindo. É por isso que eu gosto tanto de você. Você é mesmo um amigão!

O carteiro quase riu ao ver o rosto de Beto. O céu, antes azul de um azul mais azul que pode haver, nublou-se num instante e um trovão trouxe-lhe a realidade de volta, mais abruptamente do que gostaria. Para completar a cena, recebeu um tiro certeiro de uma pomba que pousara num galho acima de sua cabeça.

Cláudia girava a estaca, de maneira que as pontas cortassem mais e mais; de modo que as fisgas fossem cada vez mais fundo. Beto sentia o sangue escorrer-lhe pelas costas, quente e viscoso. Aquela palavra de novo…

“Como, ‘amigão’? Se foi ela mesma que me convidou para um fondue em sua casa, com direito a um bom vinho e um jazz de fundo?”, Beto ficava cada vez mais frustrado. “Daí, quando eu ligo para ela, veio me dizer que tinha que levar sua calopsita no veterinário. Isso é coisa que se faça?”. O mínimo a fazer era levar flores, e tentar conseguir pelo menos um encontro na hora do almoço.

— Muito obrigada mesmo. Agora eu tenho que ir embora. Tchau, Beto! Amei as flores. Se cuida, tá?

“Tá… eu vou me cuidar”, e com um beijo no rosto viu Cláudia pela última vez. De algum lugar, não sabia de onde, ouviu algumas notas de uma música antiga do Caetano Veloso. “Ah, neguinha, deixa eu gostar de você”, cantarolou mentalmente.
Foi-se embora, “amigão”, sob a fina chuva que caía, tingindo de magenta a calçada onde passava.

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Comentários»

1. cenarock - 2/07/06

Usará em breve o quê? Não compreendi

Abraço


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