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Da dor e outras agruras… 24/03/06

Posted by Calsavara in Comportamento, Crônicas, Vale a pena ler de novo!!!.
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Começo o post às 2h43 da madrugada de quinta para sexta-feira. Passou o efeito do Buscopan que eu tomei à tarde e a cólica renal não passa… Quer dizer, estou sofrendo de "espasmos do trato gênito-urinário", como diz a bula.

Não tenho miastenia grave, megacólon, glaucoma descompensado, hipertrofia prostática com retenção urinária, estenoses mecânicas do trato gastrointestinal e nem hipersensibilidade ao brometo de N-butilescopolamina. Por isso posso tomar o medicamento sempre que preciso for…

Não senti a boca seca, nem desconforto abdominal ou constipação. Confusão mental, sonolência, cefaléia, inquietação e tontura, só as de sempre mesmo. Palpitação, taquicardia e hipotensão ortostática nem se manifestaram.

Pode ser que os pequenos cálculos que carrego comigo tenham resolvido manifestar a sua presença. Sofro de nefrolitíase há, pelo menos, 6 anos. E sei bem como é produzir esses pequenos "cascalhos", que tanto dóem quando se movimentam. Quer saber como é? Pense em você urinando uma pedra de sal grosso… Dói…

Mas talvez a dor que eu sinta agora possa ser apenas um reflexo psicossomático, uma somatização qualquer que meu corpo arrumou pra dizer que algo lá dentro, bem no fundo, não vai lá muito bem. Pode ser que o poderoso brometo de N-butilescopolamina, associado ao diclofenaco sódico, não tenha nenhum efeito sobre essas pontadas. Quem sabe a cura, ou pelo menos o alívio, para o meu mal-estar não esteja nas mãos de alguém…

Talvez tudo o que eu precise não esteja dentro de um frasco ou cartela, não esteja dentro de uma prateleira ou mesmo de uma gaveta no banheiro. Talvez, um toque carinhoso, um abraço terno e apaixonado, um afagar de cabelos possa ser o analgésico que eu tanto preciso.

As mãos… Como elas são importantes, você já se deu conta disso? Para Augusto dos Anjos, a mão que afagava, acarinhava, era a mesma que apedrejava, contundia. Como é gostoso receber um cafuné, ou mesmo uma blandícia (vai no Houaiss que ele te conta o que é). Acho que isso me falta. E como faz falta…

Sobre a importância das mãos, para tudo, para todos, deixo o Monólogo das Mãos, de Ghiaroni (imortalizado por Procópio Ferreira), falar por mim. Até porque, se um dia eu chegar a falar assim, darei-me por satisfeito.

mãos

Para que servem as mãos?

As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever…

As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário; Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena; foi com as mãos que Jesus amparou Madalena; com as mãos, David agitou a funda que matou Golias; as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena; Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência; os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!

Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.

A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda; o operário construir e o burguês destruir; o bom amparar e o justo punir; o amante acariciar e o ladrão roubar; o honesto trabalhar e o viciado jogar. Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!

Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!

As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.

Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos. (Os surdos falam com as mãos)

As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros. O autor do "Homo Rebus" lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.

Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas. A mão aberta, acariciando, mostra a bondade; fechada e levantada mostra a força e o poder; empunha a espada, a pena e a cruz!

Modela os mármores e os bronzes; dá cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza. Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.

O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de fidelidade. O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; Jesus abençoava com as mãos; as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.

Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar.

Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.

E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.

Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.

E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.

E as mãos dos amigos nos conduzem…

E as mãos dos coveiros nos enterram!

Comentários»

1. André Simões - 24/03/06

Muito bons os seus textos e o seu blog, Calsa! Continue escrevendo.

2. Bruna - 20/06/07

O texto é muito lindo e legal mas to canssada de tando ler esse texto pois na oficina de teatro já li demais e vou aprensenta-lo numa faculdade da minha cidade no dia do meu aniversário